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História da Arte

HEITOR DOS PRAZERES

por Marco Antonio da Silva.

A história de Heitor dos Prazeres se confunde com a história do Samba.

Heitor nasceu no Rio de Janeiro em 1898, apenas 10 anos após a abolição da escravatura. Sua mãe era costureira e o pai era clarinetista da banda da Guarda Nacional, isto dava à família uma condição privilegiada em relação à comunidade negra da época.

Ainda na infância ganhou seu primeiro cavaquinho e passou a frequentar os locais onde a cultura negra efervescia no Rio de Janeiro. Posteriormente ele passou a denominar essa região de Pequena África (a Zona Portuária do Rio, os atuais bairros da Saúde, Gamboa, Santo Cristo e Praça Onze e Praça Mauá).

A Pequena África de Heitor dos Prazeres se formou em torno do Cais do Valongo, local de desembarque e comércio dos negros escravizados. Anteriormente o desembarque acontecia no Porto da Praça XV, mas por volta de meados de 1770 o tráfico negreiro foi empurrado para o Valongo com o intuito de melhorar a imagem de “boas vindas” aos aristocratas que chegavam ao Rio no porto e se deparavam com negros nus, enfermos e de todo tipo de atrocidade que acompanhava a indústria escravagista.

RUGENDAS, 1835 Desembarque de escravos no Cais do Valongo

Deste modo, após a abolição, a região do Valongo acabou concentrando a comunidade de alforriados e de negros libertos no Rio de Janeiro, com o tempo a comunidade acabou se organizando em cortiços, sobrados, becos, ruelas, favelas e conforme outros negros migravam da Bahia e de quilombos, a região foi ficando conhecida como reduto da cultura ancestral africana.

Heitor dos Prazeres frequentava as casas das Tias, as negras baianas da Pequena África, e foi lá que ganhou experiência com o cavaquinho. Seguindo outros “bambas” da época dividindo-se entre o ofício da carpintaria, o trabalho de engraxate e as rodas de cavaquinho, tornou-se um grande compositor de samba.

Heitor compôs inúmeros sambas e foi peça fundamental no nascimento de escolas de samba como Portela e Mangueira. Compôs Pirrot Apaixonado para o carnaval de 1935 em parceria com Noel Rosa, e estima-se que seja responsável por cerca de 300 sambas, mas sua arte não se restringiu apenas à música.

Do samba à pintura

Por volta de 1937 passou a pintar e exibir suas pinturas. Autodidata, retratava em seus quadros aquilo que já abordava em seus sambas… a cultura do negro, a vida nos cortiços, sua Pequena África, as cores do Carnaval, as rodas de samba e bailes, as festividades, as favelas.

Apesar de sua arte ser considerada “Arte Popular” por não ter formação acadêmica em Artes Visuais e pintar tudo a partir da memória, sem muitos estudos ou modelos, Heitor dos Prazeres teve algum destaque na pintura ainda em vida. Compôs inúmeras exposições coletivas pelo Brasil e em 1951 sua obra Moenda foi premiada na II Bienal de São Paulo. Após a morte sua obra alçou para exposições também na Europa.

A arte de Heitor dos Prazeres nasce de um desejo de retratar aquilo que está nas ruas, no roçado, na favela. Distante da iconografia europeia, ou desgarrado do movimento Modernista e sem muitas pretensões sua obra nos transporta para um Brasil festivo, boêmio e fundamentalmente popular.