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História da Arte

JEAN-BAPTISTE DEBRET

por Marco Antonio da Silva.

O primeiro contato que tive com Debret (Paris, França, 1768-1848) foi através dos meus livros didáticos. Sempre estudei em escola pública, entenda isso como “a escola do bairro”. Aquela escola onde os recursos são baixos, os estudantes têm pouquíssimo acesso à lazer fora da vizinhança e a escola torna-se o único centro de interação social que dá acesso à Historia, Cultura, Lazer e percepção de mundo para além dos limites da vizinhança, entenda vizinhança como… Favela.

Debret era o artista que ilustrava meus livros de história em meados dos anos 90, com imagens como essa:

DEBRET, 1835. Execução do açoite.

Esse tipo de imagem povoou meus livros didáticos durante  todo meu percurso pelo Ensino Fundamental, que tinha outro nome, mas isso realmente não nos interessa. Apesar de negro, eu não sabia nada de cultura ou herança africana, mas eu conhecia um pouco da História da Tortura através das obras do Debret. Foucault que me perdoe, mas Debret ensinou-me muito, de forma mais prática, com suas gravuras.

Eu absorvia a imagem sem nunca ponderar de fato quem havia sido Debret. A imagem permanecia ofuscante demais, para o tipo de criança imaginativa que eu era, como todas as crianças são, eu imaginava as histórias que cercavam as cenas de Debret de forma vívida, sem pensar na relevância de seu trabalho, ou trajetória do artista.

DEBRET, 1835. Feitor castigando negro

A questão inicial, antes de apresentarmos “Debret”, é ponderar sobre o impacto dessas imagens na construção de subjetividade de uma criança negra no contexto da escola pública.

Certamente as pessoas que elaboravam livros didáticos na época não cogitaram esse tipo de raciocínio, mesmo considerando toda a boa vontade que pode cercar o desenvolvimento de um livro didático, os livros de História daquela época sempre trataram a negritude a partir da tortura e escravidão, e nunca a partir da cultura afro-brasileira.

Em janeiro de 2003 eu já havia concluído todo o ensino básico, finalmente entra em vigor a Lei 10.639/03 estabelecendo como obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira:

§ 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. (BRASIL, 2003)

Posteriormente foram consideradas as contribuições indígenas na formação da cultura brasileira, e por ventura, os livros didáticos foram “se adequando” – poderíamos dizer que o livro mudou, mas se “adequar” é um termo mais efetivo neste sentido.

Deste modo, para falar sobre Debret considero que seja importante ter em vista o contexto das políticas que moldam os livros didáticos e das leis que estabelecem a cultura afro-brasileira e indígena como peças fundamentais na construção do imaginário da sociedade brasileira. E só assim poderemos compreender que o trabalho de Debret vai muito além dos registros da sociedade escravocrata, que muito provavelmente, chocava os ideais iluministas e do neoclassicismo que Debret trazia em sua bagagem artística.

O contexto da Missão Artística Francesa

Com a expansão de Napoleão Bonaparte na Europa, a Família Real Portuguesa foge para o Brasil em 1808. O Brasil fora alçado a Reino Unido de Portugal e Algarves neste período, e D. João VI promoveu várias outras iniciativas que visavam modernizar a antiga colônia. Neste contexto de inovação entra em cena a Missão Artística Francesa.

A Missão Francesa foi composta por um grupo de artistas vindos direto de Paris com o intuito de renovar a educação e o ensino das artes no Brasil, que artisticamente ainda vivia com uma prática medieval voltada a temas religiosos. A Missão Francesa trazia ideais do Iluminismo e artisticamente promovia doutrinas neoclássicas. Promover essa mudança de paradigma era o grande desafio da Missão.

Compunham a Missão Artística, escultores, gravadores, pintores, arquitetos e outros profissionais com temáticas específicas. Entre eles, Jean-Baptiste Debret, que até então, havia sido nomeado como pintor da corte de Napoleão.

Debret chegou no Brasil em 1816, junto com seus compatriotas parisienses. A função de Debret, ao desembarcar no Rio de Janeiro – capital do Reino Unido na época – foi a de registrar os costumes e hábitos da Corte Portuguesa e da classe abastada fluminense (em ampla formação com o agrupamento de comerciantes/políticos simpatizantes à administração de D. João VI).

Participou ativamente da reestruturação artística e lecionou na Academia Imperial de Belas artes, fundada em 1826.  Além de retratar o cotidiano e costumes do Brasil do século XIX através de suas pinturas e gravuras, também contribuiu na ornamentação imperial, e diversos outros trabalhos na construção do ideal neoclassicista que o Brasil do século XIX necessitava para criar um imaginário de Reino, e não uma mera colônia.

O trabalho de Debret é documentarista. Ele retratou a vida da aristocracia brasileira, as paisagens, os tipos e personalidades que figuravam o Brasil à época do século XIX. Nos dias de hoje, Debret seria considerado um cronista ilustrador por causa do seu poder de síntese das indumentárias e cerimônias da corte portuguesa no Brasil (modas e modos). E isso era de grande importância, pois D. João precisava que o imaginário popular acerca da antiga colônia mudasse. Na verdade, D. João VI quis transformar a capital fluminense numa capital européia.

Permaneceu no Brasil por cerca de quinze anos, e certamente alguns aspectos da cultura local e da aristocracia e corte portuguesa por aqui instalados, o chocavam. Enquanto o Brasil ainda cultivava um imaginário medieval e escravocrata de sociedade, os ideais do Iluminismo e o neoclassicismo que tradicionalmente Debret trazia como bagagem, entravam em choque com o que ele via e tinha que registrar.

Ao retornar à França publica “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil” (no início da década de 1830). Um livro ilustrado onde ele descreve em pormenores os traços da cultura brasileira mais relevantes, e exóticos. São 220 gravuras que, apesar de não ter tanto impacto na França pois já haviam trabalhos parecidos relatando as terras exóticas do sul, é de grande importância para a historiografia brasileira.

Debret: Carnaval, povos indígenas, aristocracia.

Nos anos que esteve no Rio de Janeiro Jean-Baptiste Debret registrou não só a cultura escravagista como os livros didáticos dos anos 90 costumavam salientar, mas também a cultura do Carnaval.

Em “Viagem Pitoresca” ele descreve as festividades do carnaval. A festa popular no Brasil diferia em muito do carnaval na Europa, tradicionalmente marcado pelos bailes de máscaras.

No Brasil, descreve Debret, a festa é marcada pelo Limão de cheiro: bolas de cera recheadas com água perfumada.

Durante os três dias que antecedem a Quaresma, a sociedade brasileira brinca nas ruas, e as crianças borrifam água perfumada umas nas outras com bisnagas e seringas. Essa festa era conhecida como entrudo e fora trazida pelos portugueses no século XVII e adaptada à moda brasileira.

O entrudo acontecia em ambientes familiares privados, mas as camadas mais desfavorecidas da sociedade brasileira (os alforriados, os escravos, e os pobres) popularizaram a prática nas ruas, aperfeiçoando o entrudo com práticas e culturas afro-brasileiras como a música e a culinária.

Debret descreve ainda o clima das ruas, o cheiro de canela que irradia a festa popular, o cotidiano das negras com seus tabuleiros, os negros que conseguiam sair para a festa após o término de seus afazeres.

Carnaval (1824).

Debret retratou a polivalência e as inconsistências de uma sociedade que queria se modernizar, mas ainda se via presa às amarras da escravidão. Uma colônia que aspirava ser metrópole, tal como era Paris, mas ignorava a cultura que vinha das ruas, do sincretismo, da ordem popular, do povo que nascia junto com a terra. Debret registrou um Brasil que se esforçava para entrar nos moldes europeus, ao mesmo tempo que “denunciava” as práticas retrógradas da colônia.

Entre seus trabalhos no Brasil é possível perceber diversos aspectos para além daqueles que os livros didáticos dos anos 90 imprimiam: a cultura indígena, a festa popular e cultura dos negros, o cotidiano da corte e aristocracia brasileira, os costumes, as indumentárias, enfim. Debret retrata com muito realismo um Brasil tão familiar em uma época que nem se tinha ideia o que era o Brasil afinal.