Carregando...
Artistas em pesquisa

JAIME LAURIANO

por Vicente Rocha.

Fig 1 – Jaime Lauriano.

O paulista Jaime Lauriano (1985), nascido na cidade de Diadema, Estado de São Paulo (Figura1), cria trabalhos caracterizados pela dualidade do conteúdo de suas pesquisas com estratégias de formalização e, assim, entrega ao público obras que visam examinar e repercutir sistemas de poder e discriminação presentes na história brasileira.

Artista acadêmico e multidisciplinar, Lauriano busca através de artifícios audiovisuais, instalações, cartografias e textos críticos, evidenciar traumas históricos estabelecidos pelas Instituições ao povo negro. E, através de muitas linguagens estéticas, tem se afirmado na contemporaneidade. Uma de suas obras mais recentes, “Brinquedo de Furar Moletom” (Figuras 2 e 3), exposta no foyer do Museu de Arte Contemporânea de Niterói (RJ), em 2018, é construída com vinte e sete miniaturas maciças, dentre elas, três caravelas, um tanque militar e vinte e três carros de polícia. Todas as miniaturas são feitas de balas usadas – recolhidas em zonas de conflito – e fundidas com latão “para dar ligadura”, como mesmo diz.

Fig 2 – “Brinquedo de Furar Moletom” (2018).
Fig 3 – “Brinquedo de furar moletom”, (2018).

O artista também desenvolve uma série de trabalhos com cartografias do Brasil Império (Figura 4) que, como forma de intervenção artística, levanta e aponta denúncias do genocídio indígena e da população preta no Brasil durante o processo de colonização. Violência essa também evidenciada nas esculturas, instalações e site-specific. Com as questões históricas nas cartografias, Lauriano mantém uma linha poética pertinente e coesa, sendo atualmente um dos principais representantes da arte nacional. Seus trabalhos já foram expostos no MAC, de Niterói; no Museu de Arte do Rio e na Bienal de São Paulo.

Fig 4 – “Invasão” (2017).

Seguindo a mesma perspectiva histórica, o artista apresenta uma série inspirada na obra do artista francês Jean Baptiste Debret onde retrata os “carregadores de cangalhas” (Figura 5). No século XIX, esse era um meio de transporte simples e rápido, geralmente realizado por dois negros – ou mais. Os escravos deveriam levar o conteúdo do peso da carga diretamente ao patrão, desde móveis pesados a outros frágeis, tais como pianos, espelhos ou pipas de aguardente. Cordas suspensas por varas criavam o apoio para a carga e, assim, o serviço era realizado. Haviam também os carros, nome genérico para se referir às carruagens de madeira simples, com quatro rodas, feitas de tábuas que sustentavam grandes pesos, as quais eram amarradas com cordas em sua parte dianteira e levadas por escravos. Normalmente, o número variava de quatro a seis: metade puxando com a corda e, a outra, empurrando atrás da locomotiva. Caso atrasassem, os negros sofriam o castigo de seis a oito francos. A brutalidade típica do sistema escravista tornava os negros meros objetos de carga.

Fig 5 – “Carregadores de cangalhas” , Debret
(c. 1820).

Enquanto, nas pranchas de Debret, os escravos negros foram representados carregando e transportando grandes volumes, na obra “Trabalho” (2017), de Lauriano, a metalinguagem (Figura 6) é estabelecida com os negros “carregando” o Brasil Colônia nos ombros – o que muito ainda se vê nos dias atuais – de negros e negras trabalhando em situação de escravização que resultam no racismo, na segregação e na exclusão de determinados tipos de corpos. O que é definido na própria definição da obra que traz objetos que retratam a naturalização da escravidão no Brasil (calendários, camisetas, cartões postais, cédulas de dinheiro, cesto de lixo, escultura, porcelana, tapeçarias e quebra-cabeça); gravação a laser da lista de profissões com maior incidência de pessoas negras no Brasil e depoimentos que relatam o racismo estrutural no Brasil.

Fig 6 – “Trabalho” (2017).

Referências bibliográficas:

https://pt.jaimelauriano.com/ Acesso em: 24 set 2020.

https://www.premiopipa.com/pag/jaime-lauriano/ Acesso em: 24 set 2020.

https://artebrasileiros.com.br/arte/jaime-lauriano-e-a-desmistificacao-da-democracia-racial/ Acesso em: 24 set 2020.