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História da Arte

VICENTE DO RÊGO MONTEIRO

(por Daniela Cassinelli)

Vicente do Rêgo Monteiro (Recife, 1899 – Recife, 1970) foi um importante pintor brasileiro, além de escultor, desenhista, ilustrador, artista gráfico, professor, tradutor e poeta. 

Biografia artística

Nasce no ano de 1899 em Recife, onde permanece até 1908, quando a família se muda para o Rio de Janeiro. Acompanhando sua irmã, Fedora do Rêgo Monteiro (1889-1975), que ingressa na Escola Nacional de Belas Artes, Vicente inicia nesta cidade os estudos artísticos. Em 1911, a família se muda para Paris, onde o artista cursa Academias livres e participa, em 1913, da exposição coletiva “Salon des Indépendants” (Salão dos Independentes).

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Vicente e sua família retornam ao Rio de Janeiro. De volta ao Recife, o artista realiza sua primeira exposição individual, em 1919, que segue, nos anos subsequentes, para o Rio de Janeiro e São Paulo. Já nessa época demonstra grande interesse pela arte marajoara e pelas lendas e costumes amazônicos, referências que serão cruciais para sua produção artística, como é possível ver na obra O Boto (Imagem 1) e Mani Oca, ambas de 1921.

Imagem 1

O artista realiza, em 1921, o espetáculo Lendas, Crenças e Talismãs dos Índios do Amazonas, no Teatro Trianon, no Rio de Janeiro, bastante elogiado pelo poeta e crítico Ronald de Carvalho (1893-1935). Nesta época, Rêgo Monteiro entra em contato com o grupo modernista, relacionando-se com artistas como Anita Malfatti, Victor Brecheret e Di Cavalcanti. Apesar de retornar a Paris em 1921, deixa algumas de suas pinturas com Ronald de Carvalho, que as inclui na Semana de Arte Moderna de 1922.

Em Paris, Vicente convive intimamente com outros artistas da chamada Escola de Paris e acompanha de perto o movimento das vanguardas europeias. Na pintura A caçada (Imagem 2), de 1923, o pintor utiliza, por exemplo, o recurso da estilização das formas, inspirado no art déco, como também o aspecto corporal das figuras, que remete a engrenagens, tem como parâmetro as obras de Fernand Léger (1881-1955). Apesar das influências europeias no âmbito formal de sua obra, os temas trabalhados por Vicente do Rêgo Monteiro nesse momento têm forte inspiração no imaginário brasileiro, também recuperado pelos modernistas de 22. Ainda sobre A caçada, o artista comenta: “o meu primeiro tema realmente antropófago, uma luta entre os índios robôs com um animal fabuloso de inspiração marajoara… foi o primeiro que marca definitivamente minha nova fase. Eu deixei a virtuosidade do desenho para acrescentar o volume”.

(Imagem 2)

Também de 1923 são os figurinos e desenhos de máscaras para o balé Legendes Indiennes de L’Amazonie e as ilustrações para o livro Légendes, croyances et talismans de l’Amazone. O interesse de Rêgo Monteiro pela arte marajoara e pela cultura amazônica se alinha à busca de algumas vanguardas europeias pelo primitivo, como é o caso do cubismo, por exemplo, e de artistas como Picasso, Gauguin, entre outros. Consoante a isso, sua obra foi bem recebida pela crítica e pelo público parisiense. Por outro lado, a estadia do artista em Paris propiciou um afastamento dos movimentos modernistas de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife.

Além dos temas referentes à cultura indígena, Rêgo Monteiro trabalha temas tradicionais da arte sacra através de uma estética moderna, como nas obras Pietá (1924) (Imagem 3), A Crucificação (1924) e A Santa Ceia (1925). Nessas pinturas, podemos observar aspectos recorrentes em sua obra: figuras de relevo escultórico, paleta de cores de cromática reduzida (ocre, cinza e marrom), efeitos de claro-escuro e o uso de linhas horizontais e verticais rigorosas na estrutura da composição.

Imagem 3

Dessa época também é a pintura O menino e a ovelha (1925) (Imagem 4), que explora, por exemplo, o uso de linhas curvas, sem deixar, no entanto, de apresentar as características anteriormente apontadas como recorrentes em sua obra.

Imagem 4

Na pintura Atirador de Arco (1925) (Imagem 5), que pode ser apreciada no Mapa-visual Culturas indígenas, Rêgo teve inspiração estética na obra Caboclo (1834) (Imagem 6), de Jean-Baptiste Debret (Paris, 1768-1848), que reforça a relevância dos registros cotidianos no período que o estrangeiro esteve no Rio de Janeiro advindo da missão artística francesa, em 1816. Nessa composição, em especial, Debret organizou o indígena em torno dos elementos do arco, de linha curva, e da flecha, com linha reta. Já na obra de Rêgo podemos observar, no centro do quadro, a figura do atirador de arco cujo corpo vertical acompanha as linhas da flecha, dividindo a composição. De cada lado, percebemos as figuras de dois homens cujos corpos, envergados, se alinham ao movimento do arco. As linhas curvas que se apresentam acima do arco sugerem, por sua vez, a reverberação do ato de atirar. Sendo assim, as figuras humanas de tons ocre e relevo exagerado, característicos da obra de Rêgo Monteiro, se estruturam linearmente ao redor do arco e da flecha de modo a criar uma composição de aspecto monumental, ao mesmo tempo que denota movimento estrutural.

Imagem 5

Imagem 6

Em 1930, Vicente retorna ao Brasil por motivos familiares, e nessa ocasião organiza, em Recife, uma exposição de artistas da Escola de Paris, primeira mostra internacional de arte moderna a ser realizada no Brasil, com obras representantes do cubismo, do surrealismo, do futurismo, do expressionismo e de outras vanguardas. Contando com consagrados artistas como Pablo Picasso, Georges Braque, Gino Severini, Joan Miró, Fernand Léger, além de suas próprias obras, a exposição passa também pelo Rio de Janeiro e São Paulo, mas, infelizmente, não obtém o sucesso esperado.

Na década de 1930, o artista afasta-se da pintura e passa a dedicar-se à editoração e à ilustração, elaborando projetos gráficos das revistas Fronteiras e Renovação, onde publica textos de sua autoria e de jovens escritores, trabalhando também como diretor da Imprensa Oficial de Pernambuco. Na década seguinte, publica o livro de poesias Poemas de Bolso (1941) e organiza salões e congressos de poesia no Brasil e na França. Em 1946, retorna a Paris, onde funda a Editora La Presse à Bras, publicando poesias brasileiras e francesas.

A partir da década de 1950, Rêgo Monteiro volta a se dedicar à pintura, abordando temas regionais, como é o caso de O Aguardenteiro (fim da década de 1950), Canavial (década de 60) (Imagem 7) e O Vaqueiro (ca.1963).

Imagem 7

Em 1957, escreve o livro de sonetos Broussais – La Charité, que ganha o Prêmio Guillaume Apollinaire, em Paris. Nesse mesmo período, começa a lecionar pintura na Escola Nacional de Belas Artes da Universidade Federal de Pernambuco (EBA/UFPE), de 1957 a 1966, e entre 1966 e 1968, atua como professor do Instituto Central de Arte da Universidade de Brasília (UnB). Vicente do Rêgo Monteiro falece em Recife, em 1970, devido a um ataque cardíaco.

Recepção Crítica

Vicente do Rêgo Monteiro foi um pintor cosmopolita que transitou entre Brasil e França durante toda a vida, e talvez esse seja um fator que dificultou sua inserção no mercado artístico brasileiro e seu reconhecimento pela crítica da época, que só percebeu sua importância tardiamente.

Em matéria para o Suplemento Literário do Estado de S. Paulo, na ocasião de seu falecimento, em 1970, Aracy Amaral faz uma retrospectiva de sua trajetória, enfatizando que “em geral, aqui no sul, até recentes anos, Rêgo Monteiro era um desconhecido”. Amaral sugere que “seus méritos, como pintor e como poeta, foram reconhecidos antes por Paris que em seu próprio país”, e Walter Zanini, em matéria de 1990 para O Estado de S. Paulo, afirma que tal esquecimento se deve “à negligência da crítica, e às dificuldades de acompanhar uma existência de repentinas mudanças, de múltiplas ocupações e ademais sempre dividida entre a França e o Brasil”.

Suas obras foram adquiridas por diversos museus da Cidade Luz, como o Museu Nacional de Arte Moderna de Paris, como também por museus nacionais, como o Museu do Estado do Pernambuco e o Museu de Arte de S. Paulo, além de constar em coleções privadas e galerias.

Referências Bibliográficas

AMARAL, Aracy. Vicente do Rego Monteiro. In: Suplemento Literário do Estado de S. Paulo, São Paulo, 13 de junho de 1970. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/098116x/4102  Acesso: 11 de agosto de 2021.

DIMITROV, Eduardo. VICENTE DO REGO MONTEIRO: De expoente modernista a integralista esquecido1. Novos estudos CEBRAP, p. 193-208, 2015. Disponível em https://www.scielo.br/j/nec/a/D998ZRTnYqwhNGwXrPHHn5d/?lang=pt#  Acesso: 11 de agosto de 2021.

VICENTE do Rego Monteiro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa8953/vicente-do-rego-monteiro  Acesso: 04 de agosto de 2021.

VICENTE do Rego Monteiro. In: Almeida & Dale. Disponível em https://www.almeidaedale.com.br/pt/artistas/vicente-do-rego-monteiro  Acesso: 04 de agosto de 2021.

VICENTE do Rego Monteiro. In: Escritório de Arte. Disponível em: https://www.escritoriodearte.com/artista/vicente-do-rego-monteiro#ftn3  Acesso: 04 de agosto de 2021.

ZANINI, Walter. REGO MONTEIRO E A ESCOLA DE PARIS. In: O Estado de S. Paulo: Cultura, São Paulo, ano VII, n. 497, p.4. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/098116/52  Acesso: 11 de agosto de 2021.