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História da Arte

RODOLFO AMOEDO

por Vicente Rocha.

Breve biografia artística

Rodolfo Amoedo (BA, 11/12/1857 – RJ, 31/05/1941) foi um artista (Figura 1) com uma história repleta de reconhecimento e oportunidades no campo das Artes. Até hoje, seu legado artístico é celebrado com o reconhecimento de suas obras nacionais relevantes.

Figura 1: Registro fotográfico (séc. XIX)

Amoedo muda-se para o Rio de Janeiro em 1868 e, em 1873, ingressa no Liceu de Artes e Ofícios do Rio e tem a oportunidade de estudar com mestres como Victor Meirelles e Antônio de Souza Lobo. No ano seguinte, matricula-se na Academia Imperial de Belas Artes – Aiba – e tem aulas com Agostinho da Motta (1824 – 1878), Victor Meirelles, Zeferino da Costa (1840 – 1915) e Chaves Pinheiro (1822 – 1884).

Viaja para Paris em 1879, como pensionista da Aiba, e estuda na Académie Julian e na Ecole National Supérieure des Beaux Arts [Escola Nacional Superior de Belas Artes] de Paris, com os mestres Alexandre Cabanel (1823 – 1889) e Pierre Puvis de Chavannes (1824 – 1898). Devido à tamanha motivação, trabalho persistente e ciente das oportunidades artísticas que o cercavam, Amoedo conseguiu a incrível oportunidade de expor na cidade algumas de suas criações (Figuras 2 e 3). O que lhe rendeu, de volta ao Brasil, a nomeação de Professor de pintura, em 1888, na Academia Imperial de Belas-Artes. Neste mesmo ano é nomeado professor honorário de pintura histórica na Aiba e tem como alunos Baptista da Costa (1865 – 1926), Eliseu Visconti (1866 – 1944), Candido Portinari (1903 – 1962), Eugênio Latour (1874 – 1942) e Rodolfo Chambelland (1879-1967), entre outros.

Fig. 2-Retratato de jovem, estudo de cabeça (1883).
Fig. 3 – Sem título (1883).

A tela “Marabá” (Figura 4) foi executada por Rodolfo Amoedo durante sua estadia em Paris. No ano de 1882, o pintor fora aceito para o Salão parisiense com a referida tela. Marabá, do poeta romântico Gonçalves Dias, fora publicado em 1851 na obra Últimos Cantos. Dias, com efeito, é considerado um dos maiores poetas brasileiros, talvez o fundador da genuína poesia romântica brasileira, mais ainda no que se refere ao indianismo que regia as produções literárias de uma parte considerável da escola romântica entre nós – na tentativa de estabelecer uma literatura genuinamente brasileira, filiado ao romantismo europeu, mas de temática e inspiração nacionais. Em suma, tal poema é uma espécie de canto emblemático dos apartados da civilização, o relato comovente de uma mestiça que não encontra seu lugar no mundo. Por sua vez, o mote literário da pintura Marabá, de Rodolfo Amoedo, é constituído por uma mestiça de pele alva e contornos rosados, a mulher de tez imaculada. O pintor parecia intencional ao projetar sobre ela boa parte do foco de luz que ilumina a cena: Marabá resplandece em meio a uma paisagem sombria, onde os negros se sobrepõem aos contornos, ora acentuando-os, ora ocultando-os. Existe aqui um contraste não só de tons e luminosidade, mas também de texturas: a delicadeza da pele da mulher, ao tocar a rugosidade áspera da pedra em que se debruça, reforça sensações de incômodo e dor. Há um acordo entre a psicologia da cena e seu entorno imediato. Marabá carrega dores imensas em sua alma e a escuridão do prado reflete seu estado de alma. Amoedo colocara sua tela no limiar entre o nu e a pintura histórica. Histórica porque partia de um referencial literário bem definido, dava contorno e lastro à personalidade do modelo retratado e respeitava, ou pelo menos tentava, a história da mestiça renegada cantada nos versos do poeta mor do indianismo romântico brasileiro.

Figura 4: Marabá (1882).

Estética e legado

Com o intuito de renovar a metodologia de ensino de Artes no Brasil, em fins do século XIX, mesmo ainda persistindo numa perspectiva mais conservadora (ao olhar atual), Amoedo consegue o feito de um conceito artístico que o repaginaria em seu próprio tempo devido a proposição por uma renovação estética. Quer dizer, as características de sua obra, consideradas como peculiares de uma arte acadêmica, o classificou como um artista “liberal” para sua época, apesar de sua temática apresentar um realismo ‘cru’ e ‘amargo’ da vida burguesa, permitindo que suas telas ficassem livres de perspectivas ilusórias. No decorrer de sua trajetória artística, Amoedo preferiu temas banais e não muito dignos de adoração divina. O que o tornaria um dos artistas mais relevantes da história da arte nacional.

Realiza trabalhos de decoração no Palácio Itamaraty, na Biblioteca Nacional, no Supremo Tribunal Federal e no Supremo Tribunal Militar, no Rio de Janeiro; no Museu do Ipiranga – atualmente Museu Paulista da Universidade de São Paulo – MP/USP, em São Paulo; e no Teatro José de Alencar, em Fortaleza.

A obra (Figura 5) “O Último Tamoio” (1883), no Mapa-visual Registros, tem uma história interessante: o ensaísta Domingos José Gonçalves de Magalhães escreveu um livro intitulado “A Confederação dos Tamoyos”. Com a obra, o autor pretendia trazer reconhecimento à luta indígena no Brasil durante os anos em que o País esteve sob o domínio de Portugal. A publicação do livro foi custeada pelo imperador Pedro II. A história traz Aimberê e o padre jesuíta como personagens e foca na luta que os índios traçaram contra os portugueses da época pela liberdade de vida e pela sobrevivência no Brasil. Foi inspirado nos últimos versos de um poema do livro, que relatam como teriam sido os momentos finais de vida do chefe indígena Aimberê, que Rodolfo Amoedo pintou neste quadro.
Fig. 5 – O último Tamoio (1883).

Após sua morte, parte de sua obra é doada ao Museu Nacional de Belas Artes – MNBA no Rio de Janeiro.

Referências bibliográficas

https://brasilescola.uol.com.br/biografia/rodolfo-amoedo.htm Acesso em: 10 out 2020.

http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa21342/rodolfo-amoedo/obras Acesso em: 10 out 2020.

http://www.dezenovevinte.net/obras/nsn_amoedo.htm Acesso em: 10 out 2020.

COSTA, R. S. O corpo indígena ressignificado: Marabá e O último Tamoio de Rodolfo Amoedo, e a retórica nacionalista do final do Segundo Império. 2013. Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, São Paulo. Disponível em http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/281782 Acesso: 14 out 2020.