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História da Arte

MESTRE DIDI

por Jandira Oliveira.

Retrato de Mestre Didi com suas obras de arte. Fonte da imagem:  alô alô bahia.

Deoscóredes Maximiliano dos Santos (Salvador, 2 de dezembro de 1917 — Salvador, 6 de outubro de 2013), também conhecido como Mestre Didi, foi um artista-plástico, escritor e sacerdote baiano. Suas esculturas e produção literária abordaram a cultura das comunidades afro-brasileiras e o universo simbólico presente nas religiões de matriz africana.

O (início como) sacerdote

Filho de Maria Bibiana do Espírito Santo – a Mãe Senhora, uma importante Ialorixá brasileira e descendente da linhagem real Axipá – Mestre Didi foi iniciado no candomblé durante sua infância. Uma de suas responsabilidades dentro do terreiro Ilê Axé Opó Afonjá era a execução dos objetos rituais, em especial os xaxarás do orixá Obaluê.

Xaxará no candomblé do Ile Ase Ijino Ilu Orossi, por Toluaye. Fonte da imagem: wikipedia.org.

Obaluê no candomblé é o responsável pela terra e fogo, ligado simbolicamente ao mundo dos mortos por ser o senhor das doenças e de suas curas e tem o xaxará como seu emblema característico. O apetrecho, que se assemelha a um cetro de mão, é utilizado pelo orixá para afastar os éguns (espíritos) e energias negativas (como as doenças) da comunidade.

Essa prática lhe rendeu aprendizados sobre o manuseio dos materiais naturais utilizados na confecção desses objetos – como talos de dendezeiro, búzios e couro – e sobre os simbolismos presentes no culto aos orixás.

O artista…

A cultura e religiosidade presente nas comunidades afro-brasileiras, especialmente as localizadas na Bahia, foram a fonte de inspiração e serviram de base para o desenvolvimento de sua produção artística.

Como artista plástico, utilizou os elementos que caracterizam a visão de mundo nagô e a história dos orixás como ponto de partida para suas recriações escultóricas. Inspirado pelos materiais e formas dos objetos rituais, como os xaxarás, os reelaborava de maneira lúdica.

Cabe ressaltar que apesar da notável inspiração de caráter religioso, Mestre Didi considerava suas esculturas como de caráter estético, promovendo, de certa forma, a comunhão entre o sagrado e o belo.

A ambiência da estética das comunidades-terreiro, que valoriza a beleza da expressão artística para magnificar os valores sagrados, não separando o que é útil do que é belo, como indica o conceito da Odara, vai permitir a Mestre Didi desenvolver seu dom de escultor a partir das elaborações dos emblemas dos Orixás do interior da terra […].

(SILVA, ASSIS e SEIDEL, 2018, p.19)

Ao aproveitar-se de seu profundo conhecimento simbólico, adquirido enquanto sacerdote e pesquisador, para desenvolver seu vocabulário artístico, Mestre Didi reforça o papel da religião como uma potente forma de expressão cultural das populações de origem africana. Nesse contexto a religião tem o papel de organizar socialmente a comunidade, determinando os comportamentos, as expressões estéticas e até as formas de transmissão de conhecimento entre seus integrantes.

O ato de transfigurar objetos ritualísticos em objetos artísticos difundiu os costumes, concepções estéticas e mitologias para além dos terreiros de candomblé e das comunidades originárias.

Suas esculturas, portanto, permitem leituras a partir de diversas perspectivas: os conhecedores da cultura e religiosidade africana podem identificar as referências e alusões aos orixás e aos objetos rituais, alcançando uma dimensão específica da escultura. Aqueles que desconhecem as fontes de inspiração de Mestre Didi se deparam com a dimensão estética, mais abrangente, da obra de arte e encontram um ponto de entrada para a cultura e universo simbólico abordado pelo artista.

… e suas obras

Idilé Aiye: Sasará Ejo ati Ibirí (1995), de Mestre Didi. Fonte da imagem: Enciclopédia Itaú Cultural.

No embate com as peças, vemos uma reelaboração lúdica de fatos e história dos deuses afro-brasileiros. Em Idilé Aiye: sasará Ejo ati Ibirí, Mestre Didi aglutina as formas de duas peças ritualísticas distintas: o xaxará, instrumento feito de talos de dendezeiro adornados de búzios, contas e couro, pertencente ao orixá Obaluaiyê e que teria uma forma ao mesmo tempo fálica e purificadora. Assim como esse orixá traz a doença, também proporciona a cura. O ibiri de Nana tem como simbologia polissêmica as mesmas características purificadoras do xaxará, acrescidas da relação feminina ao ventre materno ou a uma boneca. Em torno da peça, a simbologia de um terceiro orixá: Oxumarê. Na verdade agenciam-se símbolos de deuses considerados da mesma família de orixá, todos são orixás ligados a terra e a doenças.
Essa reelaboração lúdica o artista faz com bastante liberdade. A dimensão das obras é muito maior do que a dos objetos de culto.

(CAMPOS, 2011, p.206-207)
Èyè Kan (1993), de Mestre Didi. Fonte da imagem: Enciclopédia Itaú Cultural.

Vemos, também, na peça Èyé Kan a relação que o artista faz com um pássaro, que se tornou um dos assuntos preferidos da intelectualidade no candomblé, pois se liga ao culto das feiticeiras, também chamada Eleyé, possuidoras de pássaros. Na peça, de forma criativa, Didi faz uma concepção zoomorfa para as hastes que representam o bico e as asas do possível pássaro.

(CAMPOS, 2011, p.207)
Opá Osanyin Gbegá (1995), de Mestre Didi. Fonte da imagem: Enciclopédia Itaú Cultural.

Em Omo-Osain e Opa Osayin Gbegá, o artista junta, novamente, duas simbologias, a de Obaluaiê e a de Osain. A haste principal permanece, como as outras e é encimada por um pássaro circundado por seis hastes, como nas ferramentas de Osain.

(CAMPOS, 2011, p.207)

O escritor

Mestre Didi também é reconhecido pelas pesquisas e publicações sobre a cultura afro-brasileira, preservando seus conhecimentos e expressões características, promovendo o legado desse povo e destacando sua contribuição na formação da sociedade brasileira.

Interessante salientar que a cultura e religiosidade nessas comunidades é tradicionalmente transmitida através da oralidade e da prática, como podemos observar na trajetória do próprio artista. Esse meio de transmissão de conhecimentos se distingue do sistema de escrita ao qual parte da sociedade está acostumada. Portanto, ao registrar os Itáns – contos que constituem o patrimônio sagrado da tradição nagô – e outras especificidades dessa cultura em texto Mestre Didi não só os legitima como os circula além de seu contexto nativo, como em outras regiões do Brasil e no exterior, por exemplo.

[…] é uma literatura eminentemente contextual que se realiza num aqui e agora ritual, numa dinâmica de comunicação direta, interpessoal ou intergrupal. O acervo dos contos faz parte da iniciação dos sacerdotes […].

(SILVA, ASSIS e SEIDEL, 2018, p.25)

Uma vez em que era atuante nos aspectos sociais, culturais e religiosos de sua comunidade, podemos considerar que ele exercitou ativamente a possibilidade de representar a si e a seus pares.

Através da reelaboração de objetos tidos como vindo da cultura popular e de contexto religioso e inserindo-os no circuito da arte (notadamente eurocêntrico e erudito), Mestre Didi colocou questões importantes e auxiliou na constituição de uma arte cuja identidade fosse genuinamente brasileira.


Conteúdos pesquisados:

Mestre Didi (Deoscóredes M. dos Santos). Museu Afro Brasil. Disponível em: museuafrobrasil.org.br

Mestre Didi. Literafro – Portal da Literatura Afro-brasileira. Disponível em: letras.ufmg.br/literafro

CAMPOS, M. Quando amuletos se tornam arte, e arte, amuletos. In: CAMPOS, M., et al. História da arte: escutas. Rio de Janeiro: [s.n.], 2011. p. 201-219.

SILVA, J. P. D. C.; ASSIS, K. R.; SEIDEL, R. H. Deoscoredes Maximiliano dos Santos Mestre Didi: o reverberar ancestral africanobrasileiro. [S.l.]: [s.n.], 2018. Disponível em: saberaberto.uneb.br.